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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

5º encontro GEM 2015

Ontem ocorreu o quinto encontro do GEM em 2015, para dar prosseguimento à discussão de “Crítica, razão, lírica”, ensaio contido em Razão do poema (1965), de José Guilherme Merquior. Nesse texto o autor defende que o poeta deve escrever com a convicção de que a razão precisa prevalecer e/ou supervisionar a participação eventual do sentimento, da emoção, da sensação e da fantasia, no propósito de alcançar a mais alta qualidade literária. Ao crítico, por sua vez, também cabe o dever de interpretar a obra à luz da razão, examinando todo o mecanismo semântico por trás da linguagem poética.
 
No fito de tornar o mais evidente possível o resultado de uma criação pautada na razão predominante e de uma criação pautada, sobretudo, no sentimentalismo, que Merquior lamentava comprometer a tradição lírica brasileira, pelo menos, até o modernismo, o grupo analisou comparativamente quatro  textos de natureza propositalmente bem diversa: duas letras de música ("Escreve aí", cantada por Luan Santana, e "Construção", de Chico Buarque) e dois poemas ("Amor e medo", de Casimiro de Abreu, e "Tecendo a manhã", de João Cabral de Melo Neto).
 

A análise procurou evidenciar o fato de que tanto os versos de “Escreve aí”, contemporâneos, quanto os de “Amor e medo”, românticos, constituem-se de mero senso comum a respeito dos jogos amorosos, não iluminando nenhum aspecto novo relativo ao tema. Diferentemente, a passagem de “Construção” e o poema “Tecendo a manhã” despertariam o leitor para uma realidade de que nem sempre está consciente (o orgulho principesco de um operário em comer arroz com feijão; a indiferença-irritação perante a morte alheia) ou para uma realidade insuspeita (em vez de a manhã motivar o canto dos galos, são os galos que “tecem” a manhã) ou ainda para um significado não óbvio (a manhã, no sentido de um novo tempo, como resultado de um esforço conjunto). Para Merquior, o autêntico poeta deforma o real, poeticamente, para criticamente melhor compreendê-lo.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Evento “José Guilherme Merquior: um pensador do liberalismo”

O GEM promoverá, nesta quinta-feira (1º de outubro), das 19h às 21h30, no auditório do campus Dom José Váquez Díaz da UESPI, o evento “José Guilherme Merquior: um pensador do liberalismo”. Três professores da Casa (Adriano Lima Drumond, José de Arimateas de Sousa Nunes e Carlos Wagner Araújo Nery da Cruz) pronunciarão, respectivamente, as seguintes conferências: “José Guilherme Merquior: lições de um crítico das ideias”, “O liberalismo de José Guilherme Merquior” e “A Constituição de 1988 segundo José Guilherme Merquior”.

A proposta geral do evento é tanto divulgar, no âmbito universitário local, a obra do autor em discussão quanto consolidar as atividades de nosso grupo de estudos, que vem atuando, oficialmente, desde fevereiro de 2013. Quanto ao tema que consta no recorte, objetiva enriquecer o entendimento dos discentes do campus, público-alvo principal, a respeito da tradição e das concretizações sociopolíticas e culturais do liberalismo.

Esta próxima oportunidade de interlocução contará, orgulhosamente, com a participação do prof. Dr. Nouga Cardoso Batista, Reitor da Universidade Estadual do Piauí, quem pronunciará as palavras de abertura do evento.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

4º encontro GEM 2015

Após as férias do meio deste ano letivo, o GEM voltou a reunir-se hoje, para discutir pauta especial. Em lugar de dar prosseguimento, conforme o programa, à leitura de “Crítica, razão, lírica”, um dos ensaios coligidos em Razão do poema (1965), decidiu-se avaliar o material sobre José Guilherme Merquior publicado no caderno Ilustríssima do jornal Folha de São Paulo, de domingo passado (23 de agosto).

A exemplo do apontamento das deficiências e limitações da crítica merquioriana, na opinião de Nelson Ascher (conclusões interpretativas, muitas vezes, aquém do aparato bibliográfico) e de Luiz Costa Lima (compreensões limitadas por conservadorismo político e intelectual), nosso Grupo reforçou para si o dever de não estabelecermos relação idolátrica nem com a figura nem com a obra de José Guilherme Merquior, assumindo postura crítica frente a qualquer autor ou texto, sempre passíveis de questionamentos – postura, afinal de contas, constantemente assumida pelo próprio autor de O véu e a máscara.
Contudo, sublinhou-se na reunião que o conjunto dos textos publicados pelo jornal paulista, conquanto negue pertinência ao enquadramento de Merquior à direita ou à esquerda, a recorrência do emprego a certos rótulos – velhos conhecidos do folclore merquioriano –, de fundo pejorativo, mesmo que atenuados por adjetivos (“bom reaça”, “conservador civilizado”, “conformista combativo”) para definir o pensador, concede sobrevivência a esse mesmo maniqueísmo político-ideológico, hoje datado e improdutivo para uma avaliação e um entendimento mais objetivos da obra em questão.

Cumpre ser cauteloso quanto ao recurso e ao sentido da palavra “conformista”, ao se atribuí-la a José Guilherme Merquior, sob o risco de se cair na armadilha do tipo “o novo pelo novo”, “a revolução pela revolução”, “a originalidade pela originalidade”. Compreendemos que a militância política merquioriana, baseada na plataforma das “tarefas da crítica liberal”, propostas em As ideias e as formas (1981), não era revolucionária de fato, porque partia da convicção de o liberalismo, sobretudo o social-liberalismo, poder orientar melhor os projetos de governo nacional; mas também não era conformista ou conservadora propriamente, porque reivindicava reformas nada superficiais que pudessem aprimorar o funcionamento do capitalismo.
A propósito, nunca é supérfluo ressaltar que o conformismo e o conservadorismo podem se encontrar tanto do lado da direita quanto da esquerda. De qualquer forma, adentrando o território literário do pensamento de Merquior, cabe retomar o que se informou em postagens anteriores deste blog acerca da vigilância crítica que o ensaísta aplaudia ou cobrava da literatura contemporânea; por exemplo, ao reproduzir a máxima de Hermann Broch – “o grande escritor é a um só tempo uma exalação da sua época, e seu adversário crítico” –, em O elixir do apocalipse. (1983, p.45)


No encontro de hoje, também foi questionada a hipótese aventada em “Merquior, o conformista combativo”: “À erudição somava-se o gosto irrefreável pela polêmica. Talvez sejam essas duas marcas que ainda hoje embaralhem a avaliação de sua carreira.” Não nos parece aceitável acusar-se a proverbial erudição merquioriana – expressa nas numerosas referências bibliográficas de seus ensaios e livros – de consistir em qualquer obstáculo. Isso não seria repetir a acusação despropositada de “terrorismo bibliográfico”, emitida por Eduardo Mascarenhas, ainda em vida do autor de Saudades do carnaval? Quanto à polêmica, não se trata apenas de aspecto episódico, exterior ao pensamento de Merquior, mas também elemento constituinte de seu discurso: a estrutura de Foucault ou o niilismo de cátedra, de De Praga a Paris, de O marxismo ocidental é, por excelência, a polêmica... Desconsiderá-la, a nosso ver, seria amputar o significado da obra desse pensador.
Aproveitamos a oportunidade para manifestar nossa alegria perante o papel renovador da hermenêutica merquioriana que vem cumprindo João Cezar de Castro Rocha. No caderno da Folha de São Paulo, ele, sensatamente, nos chama à realidade posterior à Queda do Muro de Berlim para descobrirmos outras contribuições do legado de José Guilherme Merquior, desvinculadas do discurso “direita ou esquerda”, “bom reaça”, “intelectual dos militares” etc. Também o professor da UERJ esclarece muito bem qual seria a originalidade do pensamento merquioriano.

 
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Para uma visão não preconceituosa e esclarecedora do conservadorismo, recomenda-se aqui a leitura de:

COUTINHO, João Pereira; PONDÉ, Luiz Felipe e ROSENFIELD, Denis. Por que virei à direita: três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo. São Paulo: Três Estrelas, 2014.

COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras: explicadas a revolucionários e reacionários. São Paulo: Três Estrelas, 2014.

SCRUTON, Roger. O que é conservadorismo. trad. Guilherme Araújo Ferreira. São Paulo: É Realizações, 2015.

SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. trad. Bruno Garschagen. Rio de Janeiro: Record, 2015.
 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Doação de livros de Merquior à biblioteca da UESPI em Bom Jesus-PI


Tive hoje a alegria de entregar, como doação, à biblioteca do campus Dom José Vásquez Díaz, residência da UESPI (Universidade Estadual do Piauí) no município de Bom Jesus, oito exemplares de livros de José Guilherme Merquior, todos na edição mais recente da É Realizações, sob coordenação de João Cezar de Castro Rocha. Os títulos são Verso universo em Drummond (2012), Razão do poema (2013), A estética de Lévi-Strauss (2013) e O liberalismo: antigo e moderno (2014). Anteriormente, já havia sido doado exemplar de De Anchieta a Euclides (2014). A intenção é ampliar o acervo merquioriano, com o objetivo principal de melhorar as condições de pesquisa do nosso grupo (GEM), além de – é claro – enriquecer o acervo ainda muito pequeno dessa biblioteca universitária.