Após as férias do meio
deste ano letivo, o GEM voltou a reunir-se hoje, para discutir pauta especial. Em
lugar de dar prosseguimento, conforme o programa, à leitura de “Crítica, razão,
lírica”, um dos ensaios coligidos em Razão
do poema (1965), decidiu-se avaliar o material sobre José Guilherme
Merquior publicado no caderno Ilustríssima
do jornal Folha de São Paulo, de
domingo passado (23 de agosto).
A exemplo do
apontamento das deficiências e limitações da crítica merquioriana, na opinião
de Nelson Ascher (conclusões interpretativas, muitas vezes, aquém do aparato
bibliográfico) e de Luiz Costa Lima (compreensões limitadas por conservadorismo
político e intelectual), nosso Grupo reforçou para si o dever de não
estabelecermos relação idolátrica nem com a figura nem com a obra de José
Guilherme Merquior, assumindo postura crítica frente a qualquer autor ou texto,
sempre passíveis de questionamentos – postura, afinal de contas, constantemente
assumida pelo próprio autor de O véu e a
máscara.
Contudo, sublinhou-se
na reunião que o conjunto dos textos publicados pelo jornal paulista, conquanto
negue pertinência ao enquadramento de Merquior à direita ou à esquerda, a
recorrência do emprego a certos rótulos – velhos conhecidos do folclore
merquioriano –, de fundo pejorativo, mesmo que atenuados por adjetivos (“bom
reaça”, “conservador civilizado”, “conformista combativo”) para definir o pensador, concede
sobrevivência a esse mesmo maniqueísmo político-ideológico, hoje datado e
improdutivo para uma avaliação e um entendimento mais objetivos da obra em
questão.
Cumpre ser cauteloso
quanto ao recurso e ao sentido da palavra “conformista”, ao se atribuí-la a
José Guilherme Merquior, sob o risco de se cair na armadilha do tipo “o novo pelo
novo”, “a revolução pela revolução”, “a originalidade pela originalidade”. Compreendemos
que a militância política merquioriana, baseada na plataforma das “tarefas da crítica
liberal”, propostas em As ideias e as formas
(1981), não era revolucionária de fato, porque partia da convicção de o liberalismo,
sobretudo o social-liberalismo, poder orientar melhor os projetos de governo nacional;
mas também não era conformista ou conservadora propriamente, porque reivindicava
reformas nada superficiais que pudessem aprimorar o funcionamento do capitalismo.
A propósito, nunca é supérfluo
ressaltar que o conformismo e o conservadorismo podem se encontrar tanto do lado
da direita quanto da esquerda. De qualquer forma, adentrando o território literário
do pensamento de Merquior, cabe retomar o que se informou em postagens anteriores
deste blog acerca da vigilância crítica que o ensaísta aplaudia ou cobrava da literatura
contemporânea; por exemplo, ao reproduzir a máxima de Hermann Broch – “o grande
escritor é a um só tempo uma exalação da sua época, e seu adversário crítico” –,
em O elixir do apocalipse. (1983, p.45)
No encontro de hoje, também
foi questionada a hipótese aventada em “Merquior, o conformista combativo”: “À erudição
somava-se o gosto irrefreável pela polêmica. Talvez sejam essas duas marcas que
ainda hoje embaralhem a avaliação de sua carreira.” Não nos parece aceitável acusar-se
a proverbial erudição merquioriana – expressa nas numerosas referências bibliográficas
de seus ensaios e livros – de consistir em qualquer obstáculo. Isso não seria repetir
a acusação despropositada de “terrorismo bibliográfico”, emitida por Eduardo Mascarenhas,
ainda em vida do autor de Saudades do carnaval?
Quanto à polêmica, não se trata apenas de aspecto episódico, exterior ao pensamento
de Merquior, mas também elemento constituinte de seu discurso: a estrutura de Foucault ou o niilismo de cátedra, de De
Praga a Paris, de O marxismo ocidental
é, por excelência, a polêmica... Desconsiderá-la, a nosso ver, seria amputar o significado
da obra desse pensador.
Aproveitamos a oportunidade
para manifestar nossa alegria perante o papel renovador da hermenêutica merquioriana que vem cumprindo João Cezar de Castro Rocha.
No caderno da Folha de São Paulo, ele,
sensatamente, nos chama à realidade posterior à Queda do Muro de Berlim para descobrirmos
outras contribuições do legado de José Guilherme Merquior, desvinculadas do discurso
“direita ou esquerda”, “bom reaça”, “intelectual dos militares” etc. Também o professor
da UERJ esclarece muito bem qual seria a originalidade do pensamento merquioriano.
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Para uma visão não preconceituosa e esclarecedora do conservadorismo, recomenda-se aqui a leitura de:
COUTINHO, João Pereira; PONDÉ, Luiz Felipe e ROSENFIELD, Denis.
Por que virei à direita: três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo. São Paulo: Três Estrelas, 2014.
COUTINHO, João Pereira.
As ideias conservadoras: explicadas a revolucionários e reacionários. São Paulo: Três Estrelas, 2014.
SCRUTON, Roger.
O que é conservadorismo. trad. Guilherme Araújo Ferreira. São Paulo: É Realizações, 2015.
SCRUTON, Roger.
Como ser um conservador. trad. Bruno Garschagen. Rio de Janeiro: Record, 2015.