sexta-feira, 12 de maio de 2017

Falecimento de Antonio Candido



Ø  Próximo Post QMM: 27 de maio de 2017

O universo merquioriano sofre mais uma perda, poucos dias após o falecimento de Eduardo Portella. Nesta sexta-feira, internado no hospital paulistano Albert Einstein, morreu Antonio Candido de Mello e Souza, aos 98 anos de idade, em decorrência de problemas no intestino. Trata-se, como muito bem se sabe, ou se devia saber, do maior crítico literário brasileiro, com projeção internacional, contando-se entre suas contribuições nada menos do que Formação da literatura brasileira (1959).

Para José Guilherme Merquior, Antonio Candido produziu, de fato, uma crítica literária de excelência e que correspondia à perfeição ao que o autor de Razão do poema concebia e defendia como a melhor abordagem de análise e compreensão da literatura. Em seu texto-homenagem ao professor da USP que se aposentaria no fim da década de 1970, Merquior declarava:

Não ignoro que o exemplo da obra e do ensino de Antonio Candido foi talvez o principal antídoto contra a estruturalice (e agora, as pós-estruturalices) nos nossos estudos de letras. Graças, em grande parte, ao seu influxo, a nova crítica brasileira esteve longe de sucumbir totalmente à hipnose formalista. (1979, p.122)

Mais adiante, nosso pensador do liberalismo confessava:

Pessoalmente, foi nele (para não falar de várias outras sugestões de Mestre Candido) que me inspirei (em De Anchieta a Euclides) ao tentar divisar a função latente do momento seguinte na história de nossas letras: o pós-romântico visto como fase de sofisticação técnico-intelectual do nosso sistema literário; como nele tornaria a me inspirar, ao debuxar o perfil da função do modernismo como aprofundamento do potencial de autognose da cultura brasileira. (1979, p.124)

É que a visão literária de Candido, sociólogo de formação e, como Merquior posteriormente, ex-aluno de Lévi-Strauss, se lançava a compreender o fenômeno poético na sua integração fundamental com as dimensões sociais – pedra angular do edifício teórico-crítico merquioriano. Nas palavras desse que esteve entre os primeiros alunos da então recém-fundada Universidade de São Paulo, “só a podemos entender [a obra literária] fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra”, e que “o externo (no caso, o [aspecto] social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno”. (1980, p.4)

Nascido no Rio de Janeiro, criado em Minas Gerais e formado em nível universitário em São Paulo, Antonio Candido escrevia, ensinava e falava numa linguagem sempre didática, límpida e, sobretudo, encantadora. Além do legado intelectual, deixa para nós um exemplo ético-pedagógico: humilde, procurou compreender o Brasil tanto quanto procurou ser compreendido pelos brasileiros.


Referências bibliográficas:

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 6ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1980.


MERQUIOR, José Guilherme. O texto como resultado: notas sobre a teoria da crítica em Antonio Candido in ARINOS, Afonso et alii. Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979. pp.121-131.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Falecimento de Eduardo Portella


Ø  Próximo Post QMM: 17 de maio de 2017


Faleceu ontem um grande amigo de José Guilherme Merquior: Eduardo Mattos Portella, aos 84 anos de idade. Nascido a 8 de outubro de 1932, o intelectual baiano, com assinaláveis passagens pela administração ministerial, ocupava a cadeira no 27 da Academia Brasileira de Letras. Por sua editora Tempo Brasileiro, Merquior publicou títulos importantes como Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin (1969), A estética de Lévi-Strauss (1975) e O estruturalismo dos pobres e outras questões (1975). A parceria entre os dois também quase resultou na continuidade ao De Anchieta a Euclides (1977), o primeiro volume de uma “breve história da literatura brasileira” que Merquior escreveu e ao qual sucederia um segundo de autoria de Portella.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Dossiê Merquior na Café Colombo


Agradeço a Thaís Amélia Araújo Rodrigues o acesso ao exemplar da revista aqui consultado!

Ø  Próximo Post QMM: 17 de maio de 2017

“O Carpeaux dos outros”, de João Cezar de Castro Rocha, “O humanismo crítico em A estética de Lévi-Strauss”, de Eduardo Cesar Maia, “Reler o passado sem abandonar o presente”, de Fábio Andrade, “A inteligência integrativa”, de Peron Rios, e “Lições sobre o liberalismo para os liberais de agora”, de Joel Pinheiro Fonseca, compõem o dossiê de dezesseis páginas dedicado a José Guilherme Merquior, capa da 5ª edição da revista Café Colombo, publicada no ano passado.

Castro Rocha já se notabilizou no universo merquioriano. Desde o início desta década, o professor da UERJ coordena o projeto Biblioteca José Guilherme Merquior da editora É Realizações, que até agora conta com seis volumes. Pode-se dizer, a propósito, que a pertinente homenagem da Café Colombo é quase um produto derivado desse mesmo projeto da editora paulista, visto que algo de “O Carpeaux dos outros” consta como posfácio em O liberalismo: antigo e moderno (2015), o texto de Cesar Maia repete, conquanto alterado, um dos posfácios de A estética de Lévi-Strauss (2013), assim como Peron Rios também contribui com texto em Formalismo & tradição moderna (2016) e Fábio Andrade em De Anchieta a Euclides (2014), títulos estes relançados pela É Realizações.

Não poderia ser diferente: as considerações de João Cezar de Castro Rocha servem de abertura ao dossiê, e objetivam contextualizar e situar o lugar de José Guilherme Merquior na história da inteligência brasileira. O parâmetro ao qual recorre, contudo, se volta aos laços que o autor de O marxismo ocidental estabeleceu com a intelectualidade europeia, analisados com base na correspondência volumosa e de interlocução variada que o diplomata legou e se tornou arquivo sob a guarda da É Realizações. O texto de Castro Rocha ratifica a projeção internacional de Merquior no âmbito acadêmico, tendo sido admirado por ninguém menos do que Claude Lévi-Strauss, Ernest Gellner e Raymond Aron – simplesmente, três nomes centrais do cenário acadêmico do Velho Continente. A publicação de livros originalmente em inglês e francês, e esse reconhecimento de inequívoca credibilidade aos esforços do ensaísta e diplomata carioca, convencem João Cezar de Castro Rocha de que José Guilherme Merquior teria sido um caso raro de “Carpeaux deles [dos europeus e norte-americanos]”.

Otto Maria Carpeaux (1900-1978), nascido na Áustria, imigrou para o Brasil, fugindo ao nazismo. Aqui produziu uma obra titânica, inclusive sobre nossa literatura, que ainda hoje merece atenção dos estudiosos da área. Para Castro Rocha, Merquior superou a enorme dificuldade de inverter a ordem tradicional de uma equação histórica, a do europeu ou norte-americano que vem a nosso País difundir o conhecimento e, por vezes, explicar as coisas brasileiras a nós mesmos. Sendo assim, o ensaísta brasileiro ousaria discutir temas europeus (liberalismo, marxismo, estruturalismo etc) para os próprios europeus.

Não obstante a força dessa aposta interpretativa, de fato ainda em esboço, fica desse viés de contextualização uma impressão teimosa de um engrandecimento de Merquior escorado na autoridade de ilustres nomes estrangeiros, o que se salienta na fórmula “o Carpeaux deles” ou “o Carpeaux dos outros”. No posfácio de O liberalismo: antigo e moderno, João Cezar de Castro Rocha sustenta que a originalidade merquioriana, que muitos não enxergam, residiria justamente naquela inversão de papéis. De qualquer forma, a equação ressente-se do peso dos jogos de poder geopolíticos: o ensaísta brasileiro não parece ocupar ainda na Europa e nos EUA o lugar equivalente ao de Carpeaux no Brasil. Melhor para nós. Pior para eles?

Eduardo Cezar Maia parte da constatação de que “Merquior soube guiar seu pensamento em franco diálogo com as diversas correntes teóricas de seu tempo, mas sem submeter sua perspectiva crítica a qualquer forma de dogmatismo metodológico ou ideológico – como era bastante comum num período de debates tão intensos”. (p.14-15) Sem ferir explicitamente a questão, ao frisar tal aspecto da obra merquioriana, para mim Cezar Maia aponta para a condição polêmica desta, não em sentido restrito de ter travado polêmicas com interlocutores específicos e individualizados, como Marilena Chauí e mesmo Paulo Sergio Rouanet, mas em sentido lato de se constituir inteira uma grande peça de polêmica, cujo alvo maior – ainda a meu ver – consistiria em estimular o outro a pensar perante ideias diversas senão adversárias.

As páginas do dossiê acerca de A estética de Lévi-Strauss assinalam algo importante, com que o leitor se depara especialmente nestas linhas: “A contribuição do estruturalismo lévi-straussiano ao pensamento estético da época, propõe Merquior, é reconhecer a autonomia da função estética sem abdicar da consideração de que toda forma artística funciona como uma abertura para o real, salvando assim, simultaneamente, a especificidade do fenômeno artístico e seu conteúdo cognitivo.” (p.16-17) Tem-se aí o desmembramento da concepção de realismo e de mímese segundo José Guilherme Merquior, já comentada em post anterior deste Blog (17 de abril de 2017).

Nessa mesma linha, podemos situar a resenha de Fábio Andrade, que elege a história da literatura brasileira De Anchieta a Euclides (1977) um belo exemplo de como “reler o passado sem abandonar o presente”, aproximando José Guilherme Merquior de Antonio Candido, o quase centenário autor de Formação da literatura brasileira (1959), por ambos terem consumado “o consórcio entre a visão social e a visão estética”. (p.19) A propósito, o leitor interessado nessa identificação crítica entre Candido e Merquior deverá consultar a homenagem que o segundo prestou ao primeiro, no ensaio “O texto como resultado (notas sobre a teoria da crítica em Antonio Candido”, contido no volume Esboço de figura (1979), organizado por Celso Lafer (editora Duas Cidades).

A ideia de integração, ou mais precisamente de “inteligência integrativa”, reaparece nas páginas de Peron Rios acerca do último lançamento merquioriano da É Realizações: Formalismo & tradição moderna. Nessa parte do dossiê, também se nota que “Merquior captou o sentido da arte a partir da confluência entre a forma e o zeitgeist [isto é, o espírito do tempo, ou da época]”. (p.20) Torna-se oportuno, com isso, observar que se a postura racionalista é a coluna vertebral do pensamento de José Guilherme Merquior, é verdade também que esse organismo intelectual se alimentou, nos seus pouco mais de 30 anos de existência, do combate ao formalismo.

Por falar em “reler o passado sem abandonar o presente”, as “Lições sobre o liberalismo para os liberais de agora”, último texto do dossiê, assinado por Joel Pinheiro da Fonseca, toca um problema tão atual quanto parte de sua solução se apresenta pertinente: “É curioso que Merquior seja um nome pouco reconhecido mesmo no movimento liberal e libertário que ganha corpo no Brasil. Não temos fugido à regra: como tantos outros movimentos, o movimento liberal nasce sem consciência de seu passado e por isso tem dificuldade em criar uma tradição de pensamento nativa. Mergulhar na obra de Merquior, da qual O liberalismo: antigo e moderno – reeditado em 2014 pela É Realizações – é um ponto alto, pode nos ajudar a romper a amnésia intelectual.” (p.22)


Cumpre, entretanto, uma ressalva à resenha de Pinheiro da Fonseca, referente ao fato de acusar o ensaísta falecido em 1991 de responsabilidade parcial no “vício brasileiro” de ignorar as contribuições da tradição liberal brasileira, como comprovaria o próprio O liberalismo: antigo moderno, no qual “não tem uma palavra a dizer sobre o liberalismo no Brasil, embora nomes como o de José Bonifácio ou Joaquim Nabuco não tenham deixado nada a dever, em matéria de visão social (se não de reflexão filosófica), a nenhum de seus contemporâneos”. (p.23) Não concordo com essa atribuição de culpa. Antes de tudo, porque cabe ter mente a publicação original do volume ter sido em inglês, dentro de um projeto editorial direcionado a um público anglófono. E se não há menção aos nossos liberais oitocentistas no último livro de Merquior, não se pode de jeito nenhum afirmar que os tenha ignorado no seu pensamento histórico-político. O brasileiro que os desconhece ou os menospreza há de assumir, sozinho, toda a culpa de seu próprio desconhecimento e menosprezo, com certeza incentivados pela não leitura da obra de José Guilherme Merquior.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O conceito de mímese em Merquior

Ao eleger a mímese centro de suas reflexões poéticas, José Guilherme Merquior singuralizou-se no quadro da crítica literária brasileira da segunda metade do século XX. O fato não escapou a Benedito Nunes, que, por isso mesmo, o situa ao lado, conquanto com viés distinto, de Luiz Costa Lima, (cf. 2007, p.69) autor este de Mímesis e modernidade (1980), Vida e mímesis (1995), Mímesis: desafio ao pensamento (2000), Mímesis e a reflexão contemporânea (2010) e outros títulos que tratam do assunto.

É verdade que Merquior não se dedicou à mímese (conforme sua preferência gráfica) na mesma proporção do grande teórico nascido no Maranhão. Aliás, Costa Lima lamentou que o amigo, justamente em A astúcia da mímese (1972), tenha discutido a questão que remonta à Grécia Antiga de modo “convencional” e “hoje [...] bem insuficiente”, (2000, p.401) citando as seguintes passagens: “A mímese é um espelho: não reflete nada a priori; por isso, é capaz de reproduzir tudo” (1972, p.13) e “o poeta imita a natura naturans, não a natura naturata”. Contudo, tal pequena amostra está longe de nos oferecer uma noção confiável do que José Guilherme Merquior expõe nesse seu terceiro livro.

O enfoque sobre o assunto se dá no ensaio de abertura do volume, texto intitulado “Natureza da lírica”. A linha de raciocínio aí perseguida recorda bastante a de Platão na República e mais ainda a de Aristóteles na Poética: assim como os filósofos gregos, o pensador brasileiro define a natureza da lírica como mímese; desse modo, na mesma medida em que se lança a pensar a mímese, pensa, por conseguinte, a poesia. Além disso, à semelhança dos dois sábios da Antiguidade, Merquior nem mesmo se esquece de discutir, no seu ensaio, a questão dos gêneros poéticos (os três consagrados pela filosofia grega: épico, dramático e lírico).

Para os propósitos deste nosso breve comentário, gostaria de inverter o percurso do texto, adiantando o que seu autor reserva para o fim. De fato, nas últimas páginas de “Natureza da lírica”, José Guilherme Merquior declara seu “carinho pelo conceito de mímese”, (1972, p.15) esta que seria “a mais útil das ideias em poética”, (1972, p.12) dado tratar-se de um “conceito entre todos plástico e flexível”, (1972, p.13) “um conceito apto a colher, no terreno estético, os benefícios da tendência à superação da metafísica que caracteriza o espírito da cultura moderna”. (1972, p.13) Considere o leitor ainda a seguinte passagem, constante do mesmo parágrafo das anteriores:

Numa época [a atual] que não só perdeu seu “centro” ontológico, sua imagem fechada do mundo, como se dispõe a abandonar as últimas nostalgias de um ponto fixo do ser, as ofertas tão obstinadas quanto anacrônicas de “centros” sobressalentes, enfim todos os derradeiros obstáculos a uma visão aberta, não substancialista, do universo – o papel de um conceito [o de mímese] que já traz a abertura inscrita em si só pode crescer. (1972, p.13)

Essas linhas transcritas acima atestam, pelo menos, três fatos importantes: a) que José Guilherme Merquior procurou captar algo semelhante ao que Luiz Costa Lima ainda se disporá a desvendar em suas últimas reflexões sobre o assunto, isto é, “como a questão da mímesis adere ao próprio questionamento epistemológico contemporâneo”; (2010, p.10-11) b) que o autor de A astúcia da mímese tinha plena consciência da contemporaneidade como uma época destinada a ser compreendida por uma visão aberta, não substancialista, do universo; e, finalmente, c) que o ensaísta carioca requeria uma específica legitimação de seu aparato crítico-teórico, pela via de uma espécie de demanda não apenas do objeto e ser literários, mas também das condições sócio-culturais da realidade presente.

E, afinal, o que é mímese para Merquior, segundo consta em “Natureza da lírica”? Antes de propriamente responder a essa pergunta, convém esclarecer que o ensaísta preferia escrever “mímese” com a justificativa de “salientar a diferença entre mimese, figura de retórica, e o conceito de poética e de estética homônimo”. Mimese se referiria a algo mais específico, portanto, ao “emprego do discurso direto, ‘imitando’ a fala dos personagens”. Isto é, a nota na “Memoranda” do livro ignora a grafia mímesis, como prefere Luiz Costa Lima, e ainda mimesis, como costumava escrever Benedito Nunes.

A conceituação merquioriana de mímese é fundamentalmente dialética. E o autor, com perspicaz pertinência, já a sugere em epígrafe, colhida de Johann Wolfgang von Goethe: “Não se pode fugir ao mundo de modo mais seguro do que pela arte; nenhuma forma de prender-se a ele é mais segura do que ela.” (1972, p.2) Em outras palavras, para Merquior, a mímese configura, ao mesmo tempo, a autonomia formal da arte, com sua lógica e significados próprios, o que não implicaria que a obra artística ignore a forma nem o sentido da realidade que nos circunda – pelo contrário: a mímese merquioriana, pró-aristotélica e antiplatônica, ostenta um poderoso caráter cognitivo, ou seja, a arte constitui uma contribuição à compreensão do mundo.

Ao traduzir mímese por imitação, o ensaísta explica algo que é mesmo introdutório sobre o tema, e, não obstante, muitas vezes difícil de ensinar/aprender em sala de aula: “A imitação não é fotográfica. Ela configura o concreto, mas exibe o universal.” (1972, p.7) Comento as duas frases em três enfoques.

Primeiro: observe meu leitor o quanto essa lição deve a Aristóteles, que concluía em sua Poética que a poesia, por ser mímese e, desse modo, tratar não do que aconteceu, mas do que poderia ter acontecido, mostra-se mais universal do que a história, registro de fatos particulares.

Segundo: Ouso afirmar que a assertiva “A imitação não é fotográfica” requer alguns ajustes, não tendo sido, a meu ver, uma frase conceitualmente feliz. Isso porque também a fotografia poderia ser considerada uma mímese, configurando o concreto e exibindo o universal. Por exemplo, a imagem icônica abaixo significa muito mais do que um homem diante de tanques de guerra numa praça chinesa:


Podemos também mencionar, a propósito, o célebre quadro de René Magritte, no qual a reprodução (ou a imitação) de um cachimbo apresenta-se como quase fotográfica. Porém o pintor, numa tirada teórica bem humorada, alerta o observador: “Ceci n’est pas une pipe” (“isto não é um cachimbo”), são formas, perspectivas e cores que iludem seus olhos humanos, dando-lhe a sensação de enxergar na tela esse objeto.


Para José Guilherme Merquior, à revelia de sua frase em “Natureza da lírica”, a imitação/mímese não necessariamente precisa ser fotográfica, e, embora não o seja, configura o concreto e exibe o universal.

Terceiro: o conceito sobre o qual nosso autor se debruça nesse ensaio também lhe permite, digamos, vislumbrar uma das razões da universalidade da literatura. Por que, em pleno século XXI, ainda lemos e gostamos de ler Cervantes, Shakespeare, Homero, autores que abordaram episódios, comportamentos, ambientes para nós, hoje, aparentemente tão remotos no tempo? A equação que nos parece responder a isso se propõe nestes termos: “O mundo ‘concreto’ aberto pela obra [literária] resulta de um jogo complexo entre os universais do médium (linguagem), a particularidade a que a imitação aspira, e, finalmente, o sentido de universalidade que ressuma dessa mesma imitação.” (1972, p.8) Ou ainda, de forma lapidar: “Por uma espécie de astúcia da mímese, a representação do singular logra significação universal.” (1972, p.8)

Essa significação universal, tomada no ensaio como finalidade da poesia e da literatura, constitui o valor literário maior para o pensamento crítico merquioriano. Pois o autor de O marxismo ocidental, via de regra, cobrou dos escritores o acento da dimensão ética dentro da dimensão estética, a partir da “obtenção de um conhecimento especial sobre aspectos ‘universais’ da vida humana”. (1972, p.12) E esclarece: “Ora, a astúcia da mímese indica a causa final do literário, que guarda o segredo da universalidade das suas obras: essa capacidade de interessar aos homens em qualquer tempo e lugar.” (1972, p.12)


Referências bibliográficas

LIMA, Luiz Costa. “Introdução geral” in: LIMA, Luiz Costa (org.). Mímesis e a reflexão contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010. pp.7-49.

MERQUIOR, José Guilherme. A astúcia da mímese: ensaios sobre lírica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972.


NUNES, Benedito. “Crítica literária no Brasil, ontem e hoje” in: MARTINS, Maria Helena (org.). Rumos da crítica. 2ª ed. São Paulo: Senac; Itaú Cultural, 2007. pp.51-79.

domingo, 2 de abril de 2017

Surrealismo e Merquior

O modernismo foi assunto de enorme interesse de José Guilherme Merquior. Páginas numerosas de Razão do poema (1965), A astúcia da mímese (1972), Formalismo & tradição moderna (1974), O fantasma romântico e outros ensaios (1980) dedicam-se ao movimento como um todo, no Brasil e lá fora, a autores e obras específicas. O autor chegou a planejar escrever um livro inteiro sobre o modernismo, projeto que infelizmente não se concretizou.

Na compreensão merquioriana da literatura modernista, podemos destacar, pelo menos, três conceitos: o de grotesco, sob a referência central de Wolfgang Kayser; o de alegoria, no sentido específico que dele recortou Walter Benjamin; e finalmente o de surrealismo, para o qual as fontes de discussão na obra do ensaísta brasileiro são mais diversificadas.

Neste post, vamos nos deter (sem nos estender) sobre o significado do surrealismo dentro do pensamento crítico de Merquior.

Como se sabe, o surrealismo foi uma das mais importantes correntes da vanguarda modernista europeia das primeiras décadas do século XX. Expressou-se em praticamente todas as linguagens artísticas, especialmente nas artes visuais. Na pintura, é fácil nos lembrarmos dos nomes de Salvador Dalí e de René Magritte, dos quais várias telas tornaram-se icônicas e reconhecidas de um público muito amplo. O cinema, a nova arte cujas técnicas se aprimoraram muito graças às experiências vanguardistas do modernismo, a exemplo do expressionismo alemão, também teve no surrealismo um nome de projeção: Luis Buñuel, diretor dos clássicos O cão andaluz e a A idade do ouro.

Todavia, a responsabilidade inicial e maior pela consolidação desse ismo coube, sem dúvida, ao campo literário, com os manifestos e outros textos de André Breton, um dos seus fundadores. A certidão de nascimento dessa vanguarda é “Le manifeste du surréalisme”, publicada por Breton em 1924. A data revela que se trata de um dos mais tardios produtos do modernismo europeu, uma vez que o expressionismo, o cubismo, o dadaísmo, o futurismo já haviam aparecido ou antes ou durante a Primeira Grande Guerra (1914-1918). Fosse como fosse, o surrealismo tornou-se uma força criativa poderosa, que se disseminou amplamente pelas literaturas ocidentais. Isso a tal ponto que Carlos Drummond de Andrade, em entrevista concedida em setembro de 1946, se dispôs a profetizar: “[...] acho que a literatura de amanhã deverá muito à influência desse nosso prezado cadáver do surrealismo. Digo ‘cadáver’, porque o atestado de óbito é antigo, mas a verdade é que o surrealismo está tão vivo como há dez anos ou quinze anos atrás.” (1978, p.34)

Não obstante a complexidade e a diversidade do surrealismo, este caracteriza-se pela hegemonia concedida ao inconsciente do artista como plataforma de criação. Donde a recorrência das imagens oníricas, o frequente apelo desabridamente erótico, a linguagem desconexa e ilógica. Está claro, pois, que uma influência decisiva aí em questão foi a psicanálise freudiana, assim como, posteriormente, houve de ser o marxismo.

É, de fato, com entusiasmo marxista que o alemão Walter Benjamin assim apreciará essa mudança de rumos do surrealismo, que “de uma atitude extremamente contemplativa” passaria a assumir “uma oposição revolucionária”. (1996, p.28)

Enfocando aspecto similar, o mexicano Octavio Paz, no ensaio “O verbo desencarnado”, aponta semelhanças entre o surrealismo e o romantismo alemão porque ambos teriam encampado o programa de “transformar a vida em poesia e operar assim uma revolução decisiva nos espíritos, nos costumes e na vida social”, (2009, p.86) e também porque “constituem tentativas de transcender razão e religião e fundar assim um novo sagrado”. (2009, p.87) Por outro lado, os românticos alemães e os surrealistas se contrastariam, na medida em que entre os últimos “é menos aguda e ampla a visada metafísica”, (2009, p.87) mas sua “consciência histórica [...] é mais clara e profunda e sua relação com o mundo mais direta e arrojada”. (2009, p.87) Ainda Paz salienta a intenção surrealista de “submeter a palavra às necessidades da ação”, (2009, p.87) e por consequência: “Não é tanto a criação de poemas que o surrealismo se propõe, mas a transformação dos homens em poemas viventes.” (2009, p.88)

Essa convergência entre palavra e ação foi o que mais conquistou a admiração de José Guilherme Merquior pelo surrealismo. O autor jamais abandonou sua convicção na capacidade e no dever da literatura em intervir no mundo, pela perspectiva crítica. Acresce que, na contracorrente da fácil associação entre surrealismo e evasionismo, o ensaísta brasileiro igualmente realça essa vanguarda como “poesia da ação”, que “se destina a uma luta social, concretizando e materializando a esperança do acesso ao Ser.” (2013, p.73) Por fim, destaca, em “Notas para uma Muriloscopia”, com base na lição de David Sylvester: “[...] o projeto surreal não era, em substância, estético, mas sim de cunho, antes de tudo, existencial. Por isso, seu espírito se deixa entender melhor quando cotejado com as manifestações simbólicas das grandes religiões, não com estilos artísticos no sentido formal”. (1994, p.12)

Todavia, cumpre assinalar o endosso seletivo do julgamento merquioriano a respeito do surrealismo. A técnica da escrita automática, por exemplo, conforme a qual o escritor ambiciona registrar no papel a pura voz do inconsciente, pretensiosamente sem permitir interferências de normas gramaticais, estéticas e mesmo éticas, não empolgou o crítico brasileiro. Desde seus primeiros trabalhos, que culminarão com a publicação de Razão do poema, José Guilherme Merquior prescreveria, com efeito, que a razão deveria prevalecer sobre qualquer outra dimensão criativa, como sentimentos e sensações.

O caráter visionário do surrealismo, sim, contou para Merquior como uma das suas melhores contribuições para a literatura, na medida em que se trataria de um anseio não de fugir, e sim de enfrentar o mundo concreto, com o expediente das “aproximações insólitas” e do “choque do super-real”. (1980, p.151) Em outras palavras, talvez se possa afirmar que ao autor de O véu e a máscara interessava menos o aspecto do surrealismo como escola e doutrina poética do que a construção de imagens que permitissem ou fomentassem uma visão crítica e transformadora da realidade.

Referências bibliográficas:

ANDRADE, Carlos Drummond de. in: BRAYNER, Sônia Brayner (sel.). Carlos Drummond de Andrade. Coleção Fortuna Crítica 1. Direção de Afrânio Coutinho. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

BENJAMIN, Walter. “O surrealismo: o último instantâneo da inteligência européia”. in: Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas. 7ª ed. Trad. de Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1996. pp.21-35.

PAZ, Octavio. “O verbo desencarnado”. in: Signos em rotação. Trad. Sebastião Uchoa Leite. Org. e rev. Celso Lafer e Haroldo de Campos. 3ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2009. pp.75-91.


MERQUIOR, José Guilherme. “À beira do antiuniverso debruçado, ou introdução livre à poesia de Murilo Mendes”. in: O fantasma romântico e outros ensaios. Petrópolis: Vozes, 1980. pp.151-160.

______. “Notas para uma Muriloscopia”. in: MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. pp.11-21.

______. Razão do poema: ensaios de crítica e de estética. 3ª ed. São Paulo: É Realizações, 2013.

sábado, 18 de março de 2017

Riquezas de um pequeno baú: O estruturalismo dos pobres e outras questões (2ª parte)



Sabemos que Gide não está na moda: mas não será porque sua mensagem [...] continua, em seu cerne, essencialmente intempestiva?
Merquior


Primeiramente publicado em janeiro de 1974, na revista portuguesa Colóquio Letras, “Malraux contra Gide” é ensaio que se situa em região nobre da obra merquioriana. Pois além de o texto ter sido publicado ainda uma terceira vez em Crítica (1990), antologia de uma atividade de crítico literário entre 1964 e 89, que o próprio Merquior organizou, André Gide consiste em nome de citação recorrente na ensaística do pensador brasileiro.

Em Formalismo e tradição moderna (1974), o francês é lembrado pela “ótica grotesca, antitrágica”, a mesma que teria caracterizado também Franz Kafka, Robert Musil e Thomas Mann. (2015, p.140) Em Crítica, reconhece-se nele um escritor moderno, mas não modernista, querendo-se assim ressaltar sua contribuição sintonizada com a daqueles mesmos outros autores contemporâneos, que “desfetichizaram a forma artística”, (1990, p.396) sem, contudo, produzir uma obra na qual “se encontre a histeria contracultural” típica do alto modernismo europeu. (1990, p.158) A certa altura do livro De Anchieta a Euclides (1977), o historiador da literatura brasileira recorda uma lição gidiana: “A boa literatura [...] não se faz obrigatoriamente com bons sentimentos.” (2014, p.69) Também o doutorando da Sorbonne, em sua tese sobre Carlos Drummond de Andrade, lançou mão da comparação entre o classicismo moderno do poeta itabirano e o do imoralista nietzschiano. (cf. 2012, p.258-259) Ao engajamento político-filosófico de Jean-Paul Sartre, José Guilherme Merquior dirá, em O marxismo ocidental (1986), preferir “o ato gratuito, credo de Gide”, (1987, p.195) mais uma vez enaltecido, em O elixir do apocalipse (1983), como um dos raros escritores modernos a manter em alta conta o velho Goethe, uma das mais notáveis encarnações do espírito iluminista no Ocidente, (cf. 1983, p.10) bem como uma das “poderosas lâminas analíticas [que dissecaram] a conduta humana”. (cf. 1983, p.185)

Dessas diversas referências, a síntese do julgamento merquioriano aparenta ser a de que o autor de Os moedeiros falsos pertence à família literária de Kafka, Proust, Musil, Mann (ao lado dos quais, quase sempre seu nome aparece, quando referido pelo ensaísta brasileiro), clã cujos membros foram modernos, mas não modernistas, não pelo menos em um “sentido programático ou doutrinário”. (1981, p.24) Acresce que essa compreensão crítica se esforça em apontar em André Gide um escritor tão importante quanto os demais citados, bem mais iluminados pelo sol da popularidade e da canonização artística.

Infelizmente temos de confessar não dispormos de leitura digna de registro da obra de Gide. E muito menos do texto de André Malraux com o qual José Guilherme Merquior se confronta. Por isso, vamos nos ater a destacar e comentar as linhas gerais expostas no ensaio do autor brasileiro, que se enfeixam na relação entre história e literatura, sem dúvida um dos Leitmotive da crítica merquioriana.

O ponto-chave da contestação de Merquior ao que Malraux discorre a respeito de Gide consiste no lugar deste na cena literária contemporânea. Aparentemente cada vez menos lida porque supostamente cada vez menos atual, a obra gidiana se encontraria nessas circunstâncias desfavoráveis dos anos 60 e 70 devido sobretudo, segundo Malraux na paráfrase merquioriana, a uma forte proximidade formal com a literatura do século XIX e a uma acusada falta de senso histórico, substituído este pelo interesse em questões morais.

A defesa do imoralista nietzschiano não poderia deliciar mais ao autor de O marxismo ocidental. Surgia aí mais uma oportunidade para o ensaísta, cujo pensamento também cobrava da literatura, assim como da crítica literária, “senso histórico”, balizar exemplarmente os termos dessa sua cobrança. Quanto a isso, Merquior consente que, “em matéria de anti-historicismo, Gide foi ‘de morte’”, afinal: “Três anos antes de Hiroshima, em plena convulsão bélica, [ele] é capaz de escrever, impassível: ‘De toutes les connaissances humaines, celle qui m’intéresse le moins, c’est l’Histoire’”.[i] (1975, p.46) Entretanto, pondera o crítico brasileiro mais adiante: “Talvez o primado da preocupação moral sobre o ‘senso da história’ seja uma forma aguda de... consciência histórica.” (1975, p.47)

E é nessa linha mesmo – a busca de evidenciar a astúcia histórica da obra de André Gide – que José Guilherme Merquior desenvolverá uma de suas mais belas peças de defesa crítica. Isso a ponto de ficarmos tentados a preferir “Merquior contra Malraux” ou “Merquior a favor de Gide” como títulos do ensaio, opções que naturalmente o bom gosto de seu autor não teria aprovado jamais.

A argumentação merquioriana surpreende como a de um sermão de padre Antônio Vieira. Se o escritor de Os moedeiros falsos preteriu a história e colocou a moral no centro de sua obra, o crítico brasileiro propõe que esse seria o “seu modo de fazer-se analítica do presente”. (1975, p.52) Em outros termos, a discussão ética gidiana, ao fim e ao cabo, se volta, se insere na história, na medida em que “os absolutos gideanos nunca transcendem o rigorosamente humano e terrestre; nunca se apresentam como um Absoluto”. (1975, p.47) Justamente o contrário do que se sucederia em André Malraux, quem, na condição de belo herdeiro da mentalidade euromodernista, mergulharia na história, para no fim das contas convertê-la em sabedoria de ordem quase mística, afastando-a, portanto, alguns graus da realidade.

Para José Guilherme Merquior, a literatura de Gide se valoriza igualmente pelo que nela se constata de “francamente voltairiano e parodístico”, (1975, p.53) por seu “cunho iluminista”. (1975, p.54) Em se tratando de um precoce admirador de Voltaire e mais tarde auto-identificado como “neo-iluminista”, não poderia haver maior elogio. Desse modo, ao passo que nosso pensador aproxima André Gide da concepção racionalista do Setecentos, por outro lado aproxima André Malraux da concepção irracionalista do Oitocentos romântico, que no século XX se transmutará, na futura visão de Merquior, no formalismo das vanguardas artísticas, do estruturalismo e até do pós-estruturalismo.

Outro ponto da defesa merquioriana (que, como se sabe, nunca deixa de ser também ataque) refere-se ao valor da cultura ética, sem nenhum pudor politicamente correto, “a um só tempo aristocrática e perfectiva”, aprendida da jardinagem pelo notório discípulo de Nietzsche: pois, “no jardim, o melhor nunca é um produto espontâneo, mas o produto de  uma arte obediente (sem ser servil) à natureza.” (1975, p.48)

Com base nessa exposição ensaística, José Guilherme Merquior ensina outra perspectiva de atualidade, a qual não nega a tradição como horizonte ético e estético. Em uma palavra: humanismo. André Gide, portanto, seria um importante valor humanista, afirmação do gosto pela edificação intelectual do ser humano, que assim consegue impor-se como individualidade (governada pelo ego, nos termos freudianos aos quais o ensaísta brasileiro recorre no texto), mas não se rendendo às desrazões e à anarquia do id. É tempo ainda de se ler Gide.


Referências bibliográficas:

______. As ideias e as formas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

______. Crítica (1964-1989): ensaios sobre arte e literatura. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

______. De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira. 4ª ed. ampl. São Paulo: É Realizações, 2014.

______. Formalismo e tradição moderna: o problema da arte na crise da cultura. 2ª ed. São Paulo: É Realizações, 2016.

______. O elixir do apocalipse. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

______. O estruturalismo dos pobres e outras questões. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.

______. O marxismo ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.



[i] Tradução: “De todos os conhecimentos humanos, o que menos me interessa é o da História.”

sexta-feira, 3 de março de 2017

Sobre o livro "Brazil no prego" (2004), de Gilberto Felisberto Vasconcellos

Não são poucos os professores e alunos universitários brasileiros convencidos de que passou da hora de a linguagem acadêmica afrouxar um pouco a gravata e desabotoar o colarinho. E que essa menor pompa e circunstância estilística promovam um ambiente mais aconchegante, atraente e iluminado para o leitor. Disso, há mais de 30 anos, já tinha se dado conta José Guilherme Merquior, o diplomata, o doutor em Letras pela Sorbonne e o PhD em Sociologia pela London School of Economics and Political Science, que nutriu com fartura da forma ensaística a sua obra, quase sempre escrita “além do chavão, aquém do jargão”. Sua linguagem, ao contrário dos receios puristas da Geração de 45, não tinha medo de fazer pipi na cama do pensamento.

Bons exemplos recentes de uma linguagem sem maiores ranços terminológicos e sintaxe posuda são os livros Capitalismo: modo de usar (2015), do economista formado pela UFRJ Fabio Giambiagi (o volume carece, verdade seja dita, de uma 2ª edição bem revisada), e Do PT das lutas sociais ao PT do poder (2016), do professor titular aposentado de Sociologia da USP José de Souza Martins.

Publicado há mais tempo, Brazil no prego (2004), de Gilberto Felisberto Vasconcellos, professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora, se reveste de rasgos irônicos, de neologismos trocadilhescos jocosos, o que decerto torna a leitura do livro, em certo aspecto, um divertimento. Porém, o autor não se preocupa em atender ao famoso preceito horaciano do docere cum delectare, isto é, do ensinar deleitando, pois abre mão, sem parcimônia, da seriedade de um elemento ao qual não se deve permitir brincadeiras nesse gênero textual: a consistência dos argumentos.

A obra objetiva desenvolver uma crítica ampla ao Brasil político-econômico, sócio-cultural e acadêmico entre meados do século passado e os primeiros anos do atual. Para o autor, escancaradamente alinhado à tradição latino-americana do anti-imperialismo marxista, José Guilherme Merquior, “um dos mais importantes ideólogos brasileiros do liberalismo”, (2004, p.15) resplandece envolto na culpa de ter difundido uma visão política compactuada com os interesses do capital “videofinanceiro”.

Embora para o prefaciador do volume, Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho, a tese central da obra professe que “o pensamento merquiorano foi um dos principais responsáveis pela convergência dos projetos políticos liberais e social-democratas a partir de 1989”, (2004, p.9-10) o próprio Felisberto Vasconcellos é mais cauteloso, ao prevenir e defender que

“Seria arriscado afirmar que o pensamento liberal de José Guilherme Merquior encontrar-se-ia inteiramente materializado no poder desde 1989. No entanto, é imperioso ir em busca das conexões entre sua trajetória intelectual e o quadro político contemporâneo  da sociedade brasileira.” (2004, p.35)

No entanto, várias afirmações peremptórias ficam sem o devido embasamento. Teria o sociólogo Fernando Henrique Cardoso lido os textos liberais de Merquior, a ponto de considerá-lo uma influência decisiva no exercício da presidência? A própria obra do líder tucano não fornece evidências sólidas disso. Convém ler, a tal propósito, o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, da qual o ex-presidente ocupa a cadeira no 36, a mesma de José Guilherme Merquior. As referências ao autor de Liberalismo: antigo e moderno quase não ultrapassam o nível protocolar da solenidade. Além disso, de que dados Gilberto Felisberto Vasconcellos dispôs, a respeito da recepção dos livros, artigos e ensaios de Merquior no meio político brasileiro, para ter chegado às suas convicções? 

Devemos ter em vista que o enlace entre liberalismo, em sentido mais econômico, e social-democracia, ou qualquer outra orientação mais afeita a intervenções estatais, vem sendo propagandeada por autores de projeção mundial, como Norberto Bobbio e Anthony Giddens. O filósofo político italiano preconizava o chamado social-liberalismo, vertente liberal em que inclusive Merquior se inseriu. Quanto ao britânico Giddens, é dele a famosíssima e ainda corrente expressão Terceira via, título de um livro seu publicado em 1998.

Em Brazil no prego, Felisberto Vasconcellos enaltece, quase página a página, a sociologia de Darcy Ribeiro e ataca, ali e acolá, a de Fernando Henrique Cardoso. Mas por que o primeiro seria sociólogo tão excelente quanto ignorado pela academia e o segundo tão ruim quanto referido por trabalhos científicos? O leitor não deverá encontrar outra resposta senão porque o autor do livro endossa as ideias ribeirinhas e abomina as feagaceanas. Ponto-final. Gilberto Felisberto Vasconcellos também ensina que Getúlio Vargas se matou motivado por questões relativas à Petrobrás, empresa pública sobre a qual incidiam interesses do capital estrangeiro. Porém, o que comprova a inusitada interpretação histórica? Trata-se apenas de uma pessoal convicção dogmática?

A obra de José Guilherme Merquior também nos tem a ensinar que o pensamento, de índole seja científica, seja política, não pode dispensar as conexões com a realidade, aqui compreendidas na forma de documentos, de dados históricos, de estatísticas etc, que o fundamentem. Tal postura exemplar motivou Miguel Reale a atribuir ao autor de Razão do poema o epíteto de “paladino da realidade concreta”. Tinha toda a razão o eminente jurista brasileiro.

Seja como for, Brazil no prego (com “z” mesmo, conforme o velho clichê esquerdista) se apoia numa leitura extensa de Merquior, e aventa uma interessante hipótese de a razão merquioriana dever bastante ao racionalismo marxista. Eis aí um belo filão a ser explorado. Gostaria de destacar ainda o “Capítulo 13”, de título “A viagem sem viagem”, com seu saboroso toque de crônica, muitíssimo bem dosado. E como não pasmar diante do acerto profético, que finaliza a obra, a respeito dos últimos anos de política executiva federal?